quinta-feira, 18 de abril de 2013

Crítica Literária - O Memorial do Convento de José Saramago

«Um romance histórico inovador. Personagem principal, o Convento de Mafra. O escritor aparta-se da descrição engessada, privilegiando a caracterização de uma época. Segue o estilo: "Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra... Era uma vez a gente que construiu esse convento... Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes... Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido". Tudo, "era uma vez...". Logo a começar por "D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa a até hoje ainda não emprenhou (...). Depois, a sobressair, essa espantosa personagem, Blimunda, ao encontro de Baltasar. Milhares de léguas andou Blimundo, e o romance correu mundo, na escrita e na ópera (numa adaptação do compositor italiano Azio Corghi). Para a nossa memória ficam essas duas personagens inesquecíveis, um Sete Sóis e o outro Sete Luas, a passearem o seu amor pelo Portugal violento e inquisitorial dos tristes tempos do rei D. João V.»

(Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)
Este livro foi a primeira obra que li deste autor. Ainda não tinha tido o entusiasmo de pegar num livro de Saramago e ler, mas como no secundário é uma leitura obrigatória lá me aventurei nesta história. O livro inicia-se no século XVIII com D.João V, casado com D. Ana Maria Josefa já há dois anos, mas sem nenhum herdeiro. Faz uma promessa divina que se fosse realizado aquele pedido iria construir um convento para frades franciscanos. O "milagre" acontece, a rainha fica grávida e começa-se a construção do convento.

Temos ainda um padre chamado Bartolomeu que sonha em voar e por essa razão tenta construir uma máquina voadora, do qual dá o nome passarola. Ainda existe Baltazar, um ex-soldado maneta da mão esquerda, e Blimunda, a sua mulher, dotada do poder de ver o interior das coisas, que dão vida a esta história. Eles conhecem-se num auto-de-fé em que uma das condenadas é a mãe de Blimunda e a partir desse momento, o casal fica ligado para a vida.

Acompanhamos ao longo do livro o esforço do padre, do maneta e da visionária, unidos para verem a passarola voar um dia, seguimos as peripécias e as complicações na construção do convento, a dificuldade do povo e ainda alguma da exuberância da corte portuguesa. 

Com uma escrita épica e totalmente fora do comum, tornando a leitura mais fluída, Saramago traz-nos com este livro uma crítica à sociedade portuguesa do séc. XVIII, fazendo com que o leitor reflicta e que tome consciência que muitos factos que são referidos no livro ainda acontecem em pleno século XXI. Admito que nos primeiros capítulos, costumou-me habituar àquela maneira incomum de escrever mas quando entrei no ritmo comecei a sentir a ironia, o sarcasmo e os vários tipos de humor.

Um livro clássico inspirado em acontecimentos verídicos mas que se centra nas pessoas que construíram o conventos, aqueles que puseram a sua vida em causa para ver aquele monumento erguer-se, acaba por ser uma forma de honrar aqueles que fizeram hoje possível ir a Mafra e poder-nos deliciar com aquele palácio! 

Eu gostei bastante da história, de toda a sua complexidade, mas sinto que havia partes que eram desnecessárias e esperava mais do final. O leitor fica com dezenas de perguntas por responder e eu só pensava - Não pode acabar assim! - mas acabou. Fiquei com aquele gosto de quero mais e mais!

É um livro que demora a ler, devido à vastidão de conteúdos mas um livro que vale a pena ler, que nos faz reflectir sobre os nossos sonhos, as nossas vontades, aquilo que lutamos pela vida e sobre as relações interpessoais e tudo o que elas trazem desde dor, amor, amizade, mágoa, uma amplidão de sentimentos! Irei ler mais deste autor, o próximo será "As intermitências da Morte".


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