segunda-feira, 29 de julho de 2013

Crítica Literária - “As Intermitências da Morte” de José Saramago [Gonçalo Rodrigues]

E se a morte tirasse férias? É uma pergunta pertinente e o tema que é abordado em “As Intermitências da Morte”, de José Saramago.
Foi no primeiro dia do ano que a morte deixou de operar no país. O livro começa mesmo com a frase “No dia seguinte ninguém morreu”. No entanto, as iniciais reações de felicidade causada por tal facto, depressa se convertem em reações de desespero. Nunca antes na história a morte havia deixado de matar, pelo que diversos problemas começar a advir deste misterioso acontecimento.
Acidentes? Houve-os, e com feridos graves, mas mesmo aqueles que em situações normais teriam morrido no momento do acidente não morriam. Permaneciam num sofrimento eternizado. O país geral entrou em crise, sendo de salientar os problemas enfrentados pelas funerárias (que no desespero começaram a enterrar animais, pois ao que parece a morte que nos mata não é a que mata os animais), pelas seguradoras, pelos hospitais e lares…
Também as religiões foram afetadas, pois é da morte que vivem e é o que lhes permite criar fé num Deus. Como a morte havia somente deixado de operar naquele país, surgiu, não muito depois, uma organização criminosa, a Maphia, que levava as pessoas na iminência de morrer para um país vizinho para que estas falecessem como seria suposto.
No entanto, meses mais tarde, a morte (com “m” minúsculo, como gostava de assinar a sua correspondência) voltou. Dirigiu uma carta que enviou a um canal de televisão para que a notícia fosse difundida. E assim foi, no dia seguinte à difusão da notícia, a morte voltou à rotina! Contudo, não voltou à normal rotina. A partir daquele dia a morte viria a enviar uma carta escrita (em papel cor-de-rosa, note-se), com oito dias de antecedência àqueles que iriam morrer passada essa semana, anunciando, precisamente, a sua morte.
Andava a morte atarefada com esta sua nova responsabilidade, a morte anunciada, quando recebeu de volta uma carta extraviada. Alguém não estava a receber a sua morte anunciada, assunto que não foi de fácil resolução para a morte. Por mais que esta tentasse enviar a carta ela nunca era entregue ao destinatário. O assunto intrigou a morte, pelo que esta decidiu assumir uma forma humana e tentar uma aproximação.
A morte e o homem encontraram-se algumas vezes, mas em nenhuma a morte foi capaz de lhe entregar a carta. A morte acabou por apaixonar-se pelo homem. Trocaram beijos e foram para a cama. Após o homem adormecer a morte olhou a carta violeta. Não sabia o que fazer ou pensar, mas foi até à cozinha e, como um comum mortal, acendeu um fósforo que desfez a indestrutível carta. De seguida, a morte, que nunca dorme, deitou-se agarrada ao homem e, sem perceber o que se passava, sentiu o sono.
No dia seguinte ninguém voltou a morrer! 


Esta, de entre várias obras Saramaguianas que já li, foi a que mais me agradou, tanto pela escrita como pelo enredo em si, em que a morte, personagem muito cativante, revela-se uma natureza desconhecida ao apaixonar-se pelo homem que não conseguiu matar. 


Algumas frases de que gostei: 

· “…uma vida única, maravilhosa, sem o medo quotidiano da rangente tesoura da parca,…” (p. 25)
· “Antes a morte, senhor primeiro-ministro, antes a morte que tal sorte.” (p. 37)
· “…a religião, senhor filósofo, é um assunto da terra, não tem nada que ver com o céu,…” (p. 38)
· “…as palavras são rótulos que se pegam às cousas, não são as cousas, nunca saberás como são as cousas, nem sequer que nomes são na realidade os seus,…” (p. 78)
· “…até lá continuarei a escrever com caneta, papel e tinta, tem o charme da tradição, e a tradição pesa muito nisto de morrer.” (p.143)
· “Realmente não há nada no mundo mais nu que um esqueleto. Em vida, anda duplamente vestido, primeiro pela carne com que se tapa, depois, se as não tirou para banhar-se ou para atividades mais deleitosas, pelas roupas com que a dita carne gosta de cobrir-se.” (p. 152)

Recomendo vivamente! :)

Gonçalo Rodrigues

Reacções:

0 Rabiscos:

Enviar um comentário